sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Estuprador de crianças é preso em Quijingue

Por: José Dilson - euclidesdacunha.com  

A violência urbana, bastante divulgada pelos veículos de comunicação das grandes cidades, deixou de ser um problema exclusivo desses lugares, e, como uma praga, se espalhou pelos mais tranqüilos dos lugares, bem distante das grandes aglomerações.


Talvez, confiantes na demora das autoridades policial e judiciária, na adoção de medidas para conter o avanço dos mais diversos tipos de crimes, pessoas não se preocupam mais com o que pode acontecer com elas depois.

As ações criminosas se proliferam de diversas formas, principalmente, quando envolve menores de 18 anos, superprotegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. A sensação de impunidade causa, em todos nós, decepção e revolta e, em muitos, o desejo de fazer justiça por conta própria, o que é muito grave.

Mas, ainda acende em nós, a esperança de que criminosos não podem sobrepor-se à Justiça e à sociedade, e um pequeno exemplo disso nos foi dado pelo Ministério Público, Polícia Civil e Judiciário de Euclides da Cunha, que nesta quarta-feira, 02, colocaram no xadrez, um elemento que representa perigo para todos, acusado de ter abusado de um menor de 13 anos de idade.

A vítima parece ter nascido sob o signo do sofrimento, pois é fruto da união de um pai ignorado e uma mãe que não teve como criar o ser que gerou e foi obrigada a doar o filho para um casal de idosos que não demorou muito tempo para falecer.

Desamparada, teve a piedade de ser levada por uma pessoa para cidade de Quijingue, onde foi apresentada à sua genitora, que não o aceitou, sob alegação de que não tinha condições de criá-la.

Compadecido com a história daquela criança, um rapaz sobrinho da comerciante Cenira Andrade, convidou a tia para conhecer o menino e adotá-lo como pessoa da família, num magnífico ato da solidariedade cristã.

Mãe de vários filhos e mulher de bom coração, dona Cenira - mesmo contrariada por alguns familiares, tomou para si à responsabilidade de dar um lar e amparo para aquele inocente, provavelmente, vítima da desigualdade social, da ignorância enquanto sentimento, da falta de educação escolar, moral e espiritual dos responsáveis pela sua vinda ao mundo.

Não demorou muito para que a nova mãe percebesse a dificuldade de enxergar daquele que seria tratado como filho. A criança foi levada para exames médicos em clínicas oftalmológicas de Feira de Santana e Salvador, que diagnosticaram perda de 75% do campo de visão.

A criança continuou recebendo toda assistência da família e com ajuda de óculos foi para a escola do povoado de Monte Cruzeiro, perto da fazenda Boa Esperança, local de sua morada.

Já estava sendo alfabetizada e também brincava com outras crianças, ganhou uma bicicleta. A partir dos dez anos, mudou de comportamento: não queria ir para a escola, não brincava mais com os amigos, não permitia que outras crianças rodassem em sua bicicleta.

Isolava-se em seu quarto e como desculpa para não ir para a escola dizia estar sofrendo tonturas, dor de cabeça, etc., comportamento que deixou os “pais” bastante preocupados e desconfiados de que algo de estranho estava acontecendo com aquela criança; fato também observado pela Sra. Denise Matos O. Ferreira, meio-cunhada do menino.

Agora, aos 13 anos de idade, a família descobriu a possível causa da mudança de comportamento do menino, quando um parente que mora na proximidade da fazenda Boa Esperança, foi até o lugar devolver um objeto tomado emprestado e deparou-se com uma situação constrangedora ao adentrar a residência.

O visitante ouviu vozes, algo estranho que vinha de um dos quartos da casa, que estava sem os seus proprietários, que se encontravam no povoado de Monte Cruzeiro, de onde seguiriam viagem para a cidade de Araci. 

Dona o casal havia sido transportado de motocicleta da fazenda para o povoado, em duas viagens feitas por José Nilson de Souza Silva, 25 anos, vulgo “Abelhinha”, solteiro, lavrador, residente na fazenda Riacho dos Cágados, proximidade da fazenda Boa Esperança.

“Abelhinha” era pessoa que fazia alguns serviços para a família e gozava da confiança dos “pais” do menino, de quem estava sempre por perto, de acordo com o relato feito por Denise M. Ferreira, ao repórter José Dílson Pinheiro e confirmado no relatório de atendimento psicológico assinado pela psicóloga Vanessa Pita Sousa, do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de Quijingue.

Desconfiado daquele barulho estranho, a testemunha que relatou o crime, voltou e olhou pela fechadura do quarto e viu a criança sendo abusada e a integridade do seu corpo violada por “Abelhinha”, que sob chantagem o ameaçava afirmando que mataria seus avós, como era tratado seus novos pais - pessoas adoradas pelo menino, caso revelasse os estupros para terceiros, conforme consta do relatório do CRAS. 

A cena chocante o deixou sem ação, porém, não o impediu de contar o fato para os “pais” da vítima, que reuniu a família e buscaram ajuda na delegacia de polícia de Quijingue, onde foi registrada uma queixa contra o acusado, além de orientados pelo escrivão Evandro para as providências seguintes.

De posse do relatório do CRAS, onde o menino fez um relato completo sobre os abusos, por sucessivas vezes ao longo de três anos, Denise M. Ferreira procurou o Ministério Público em Euclides da Cunha, onde foi ouvida.

Do delegado Barcos Aíra, que responde interinamente pela delegacia de polícia de Quijingue, ouviu que todas as providências de sua competência haviam sido tomadas, inclusive, o encaminhamento do processo ao Judiciário, com o pedido de prisão preventiva do acusado.

A vítima foi submetida a exames de corpo de delito no IML de Euclides da Cunha, que constataram a existência de sinais de violação da integridade de seu corpo, causados pelos eventos hediondos promovidos pelo abusador.

O fato vinha sendo mantido sob sigilo, desde o último dia 15 de agosto, quando foi descoberto; no dia 17, o acusado foi intimado a prestar depoimento, no dia 25, o menino foi assistido pelo CRAS, e no dia 02 de setembro, “Abelhinha” teve a prisão preventiva decretada pelo juiz Ricardo José Vieira de Santana, da Vara Crime da Comarca de Euclides da Cunha.

De posse do mandado de prisão, uma equipe da delegacia de polícia de Quinijingue, formada pelo agente Antônio Carlos e Diel, com o apoio do policial militar Odair, foi deslocada para o povoado de Monte Cruzeiro, onde o acusado costumava freqüentar um local de jogatina de baralho, porém, não foi encontrado.

Segundo o agente policial, “Abelhinha” estava desconfiado de que alguma coisa iria acontecer com ele, e fez o percurso de volta para sua casa, por outro caminho. Uma nova estratégia para prender o estuprador foi montada e a equipe deixou a viatura e seguiu por dentro do mato até a casa do acusado, que foi cercada.

Ao ouvir as batidas da polícia na porta da casa, “Abelhinha” tentou evadir-se pulando uma janela lateral, porém, caiu justamente à frente do agente Antônio Carlos que lhe deu voz de prisão e o conduziu ao xadrez da Depol de Quijingue, onde está recolhido à disposição da Justiça.

Talvez, confiando na impunidade, - pois segundo o agente policial civil Antônio Carlos, existe no arquivo da Depol, uma acusação por crime de pedofilia, contra o genitor de “Abelhinha”, o acusado, mesmo depois de ter sido desmascarado, continuava passando de motocicleta pela frente da casa da vítima, com se nada de anormal tivesse acontecido, em atitude de provocação que aumentava ainda mais, o sofrimento e a revolta da família.

A reportagem do site euclidesdacunha.com ouviu o acusado, que disse que a “relação com o garoto não era forçada e que a vitima o convidava”. A contradição ficou bem clara, quando disse ter abusado, apenas, uma vez. 

O site euclidesdacunha.com teve acesso ao relatório de atendimento psicológico que diz, entre outras coisas: 

“O menor tem medo de voltar para o povoado pelo risco do criminoso à solta. Conta que durante os três anos, foi privado de brincar, de ter amigos e mesmo de ir à escola, visto que o algoz era muito ciumento e temia que mantivesse proximidade afetiva com alguém a ponto de contar o segredo que tanto protegia. O menor apresenta humor deprimido e tem suas funções cognitivas preservadas, a despeito dos danos psíquicos ocasionados. Sua privação ao ambiente escolar pode ter intensificado sua conduta retraída, em função disso, foi sugerido o ingresso no grupo de pré-adolescentes do CRAS como veículo de socialização, além dos demais objetivos psicoeducativos propostos pelo grupo. Foi solicitado acompanhamento psicoterapêutico para enfrentamento mais salutar do problema por parte da família e do menor em questão, além de poderem ser detectados, com técnicas e especificidade adequadas, sintomas nocivos e possíveis desfuncionalidades no comportamento e relacionamentos interpessoais do garoto ainda encobertos para que possam ser tratados devidamente. O adolescente apresenta excessiva resistência em ficar sozinho ou com pessoas que não lhe representem proteção. Faz-se necessário desenvolver a autonomia e resiliência do menor a despeito das vicissitudes encontradas em tão tenra idade. Todas as lesões sejam de ordem física, psíquica e social precisam ser reparadas e para que isso ocorra se torna imprescindível afastar o adolescente supracitado do seu agressor, tendo em vista a vulnerabilidade emocional na qual se encontra”.

Denise M. Ferreira falou em nome da família assim como a avó, que se encontrava na cidade de Araci, e também conversou pelo telefone com o reporte José Dílson Pinheiro, autorizaram a publicação da reportagem, para que a sociedade tome conhecimento dos fatos e se manifeste contra pessoas que atentam contra a moral e os bons costumes, principalmente, crianças indefesas.

A família elogiou a célere providência da Polícia Civil, Ministério Público e do Judiciário que colocaram no xadrez, um elemento altamente perigoso, frio e calculista, que abusava, sobretudo, da confiança de quem abria as portas da casa para ajudá-lo oferecendo serviços e dando-lhe muita confiança.

“Que o fato sirva de exemplo para outras famílias”. Disse Denise.

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